Faz, talvez, dois dias. Fui ao supermercado, comprar coisa pouca, e voltava a pé para casa, quando choveu. Me escondi embaixo de uma árvore com as compras e chegou uma menina, bem novinha, um tanto encharcada e achando graça.
Imaginei que logo começaria a falar, porque no nordeste as pessoas ainda falam com desconhecidos, mesmo que não seja necessário. Só não esperava que ela me daria, na meia hora seguinte que passamos juntas, uma seqüência tão grande de informações interessantes para entender essa nova geração.
Começou com a seguinte frase: “eu vou arrebentar meu namorado se ele não aparecer”. Inocente, me surpreendi com o fato daquela menininha ter namorado, mas também com a explicação que veio a seguir: “eu marquei com ele aqui na pracinha. Vim na chuva, então ele também teria que vir”.
Primeira constatação: mulher é, geneticamente, besta. Porque sai na chuva achando que o homem vai fazer o mesmo.
A água caiu mais forte, e a árvore já não dava conta. Corremos para a igreja. Ali começava a missa, e ficamos na porta. “Me empresta seu celular?”, ela pediu, e ligou a cobrar para o namorado. “Ivan? Eu estou aqui, na igreja. Por que você não veio? São sete horas. Você tem até sete e dez para chegar”, e desligou. As ameaças de “dou um soco na cara dele se ele não vier” continuavam. Explica que leva ele na rédea curta, para onde o menino vai, tem que levar ela. O tal Ivan, me contou, queria namorar havia três anos, mas ela gostava de outro.
Pega meu telefone novamente: “Ronaldo? Você ta bravo comigo? Não, não estou querendo voltar. Só não quero que você fique intrigado de mim”. Desliga e, claro, me explica: “Ronaldo é meu ex-namorado. Ele está bravo comigo, não sabe ser amigo, acha que eu quero voltar com ele”. Diz que ainda gosta dele, mas o namoro de nove meses acabou por causa de uma amiga, que tinha mais poder sobre ele.
“Agora ele está bravo porque eu falo a verdade: essa menina tem a minha idade, está grávida e não quer que ninguém saiba. Eu disse que ela tem que contar”. Minha colega de porta de igreja, fiquei sabendo ali, tem treze anos e se chama Larissa.
A chuva não pára (quem chama isso aqui de sertão, mesmo?). Nada de Ivan, que tem uma moto. A menina espreita a rua, e levanta uma questão: “eu não consigo mais mandar nele. Quando a gente ficava, eu mandava. E agora que somos namorados, não mando mais!”.
Argumento que o ideal é ninguém mandar em ninguém. “Mas ele quer mandar em mim! Se coloco uma saia curta, ele pede para eu tirar. Mas não tiro, não!”. E justifica: “quando ele botar dinheiro em casa, aí sim tem o direito de decidir com que roupa eu vou sair”.
Já estou sem paciência de ficar em pé. O padre reza, a chuva cai. E Larissa continua: “meu namorado tem os dois dentes da frente quebrados por minha causa!”, e não foi mero acidente. A menina me conta que, um belo dia, ele disse que não poderia vê-la, porque ia estudar. Ela desconfiou, e quando ele passou na frente da sua casa, pegou uma moto e seguiu o rapaz, que entrou na casa de uma conhecida deles. Quando Larissa chegou no quarto, viu Ivan beijando a irmã de Claudiane, a dona da casa. Enraivecida, deu um soco na cara de Ivan, que ainda não era seu namorado. Com o evento, perdeu dois dentes e ganhou Larissa.
Meu telefone toca. É minha mãe pedindo meu MSN. A menina se anima: “você tem MSN? Me adiciona? Sabe mudar a senha? A minha é com o nome de um ex-namorado, Paulinho. Namorado retrasado”.
Eram sete e meia, continuava a chover, e Ivan não apareceu. Concordo em adicioná-la e despeço: “o final desta história, você me conta pela Internet”.
Ainda não fiquei sabendo se Ivan apareceu. Mas não é muito difícil de imaginar o desfecho.