Eu não disse?


Eu, profeçora
Terça-feira, 24 Junho 2008, 1:54 pm
Arquivado em: Por Mariana Albanese

E não é que me chamaram pra dar aula? De jornalismo!

Seguindo a recente tradição caririense de quase tudo o que planejei na vida dar certo aqui, consegui botar em prática meu projeto “O jornal da minha escola”, em que uso o jornal como um ambiente multidisciplinar. O legal é que fui convidada - pela Isabelle, que conheci na Casa Grande quando fazia a tese dela.

Cada vez mais, o que tiver que ser, será.



Síndrome da vaca louca
Quinta-feira, 19 Junho 2008, 12:31 pm
Arquivado em: Por Mariana Albanese

Estava pensando nesses dias: quando o Cariri vai deixar de ser pauta para se tornar cenário dos meus posts? Ou seja: quando vou parar de falar daqui, para falar das coisas que vivo aqui, cotidianamente?
Mas aí a resposta veio a galope, a trote, ou sei lá como se chama o que a vaca faz quando corre. E ela veio, desembestada, como um http://vacalouca.zip.net/trem das onze.
Voltava de noite pra casa com meu amigo Rafa, depois de mais um papo na Praça da Sé. Falávamos da vida, de amores e desamores, quando vimos e ouvimos o que pensamos ser um arrastão.
- Uma vaca!
Uma vaca. Correndo desesperadamente em nossa direção. Na mesma calçada. A cinco metros, no máximo. Foi quando eu achei que ia morrer.
Ia ser uma morte estúpida, assassinada por uma vaca na rua de casa. E ela vinha que vinha. Era pior correr. Fomos meio devagarzinho para um lado. Ela também. Pro outro, ela também.
Talvez ela quisesse saber como é perseguir, ao invés de ser perseguida, situação que vive há séculos dentro do ditado do boi tonto.
Não sei quando foi que ela desistiu da gente. Eu estava de olho fechado, espremida perto da parede, quase arrancando o braço do Rafa. Sei é que quando vi que tinha sobrevivido, tive a maior crise de riso dos últimos 102 anos.



Eu, Carrie e Mr. Big
Segunda-feira, 9 Junho 2008, 3:42 pm
Arquivado em: Por Mariana Albanese

Ainda não assisti ao filme Sex And The City, que estreou nos lugares onde não estou. Mas claro que ecos já chegaram até aqui, mesmo antes da imprensa responder à pergunta que mudaria a história dos relacionamentos humanos: o Mr. Big casou com a Carrie?

Casou, respondo.

A princípio, isso demonstra o quanto a ficção pode ser prejudicial à nossa saúde mental: a gente passa a vida acreditando que o segredo da felicidade está em ter uma secretária eletrônica com a gravação: “no momento não estou, fui comprar sapatos”. E pior: que vai terminar seu seriado com o Mr. Big indo até Paris te encontrar.
Mas depois, analisando com calma, vi que não havia motivo para revolta. Carrie casou, sim, com ele. Só que demorou seis temporadas e um filme para isso! Haja paciência…

Enquanto isso, penso em uma frase que li ontem, na Sala do Coração de Jesus da Casa Grande: “não sonhe com um castelo se você pode ser feliz em uma casinha”. Quantas vezes ela não tentou ser feliz na tal casinha? E se tivesse ficado conformada, teria encontrado o castelo de Big?

Na ficção, não. Mas e aqui, nesse Brasil brasileiro, na minha realidade, na realidade das minhas amigas, também adoradoras de Carrie? Vale o quê? O Castelo ou a casinha?



Meus 13 anos
Sábado, 7 Junho 2008, 10:39 pm
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(Da onde foi que surgiu tudo isso mesmo?). Deixa pra !!!! Pra dó, ré, mi, fá, sol, ááááááááááá!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!



Big Brother Cariri
Quinta-feira, 5 Junho 2008, 11:52 am
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Andava ontem pelas ruas do Crato, cansada e preocupada, fugindo um pouco do escritório para respirar.
Tomei o caminho do Sesc por uma rua não muito organizada, com armazéns e bares, e dei de cara com o que Chico Buarque chamaria de “nego torto”: um pobre coitado bêbado e esfarrapado. Virei para desviar, quando ouvi: “ei loirinha, você não vai para Nova Olinda?”.

Medo.

Isso me lembra de contar o tanto que minha profissão é inútil aqui. Toda vez que vou contar uma novidade, principalmente sobre mim, já estão todos sabendo. Domingo teve festa. Inútil dizer que segunda-feira o relatório já estava pronto.

Seriam os caririenses mais fofoqueiros que o resto dos seres humanos? De forma alguma. Se os paulistanos tivessem tempo, fariam a mesma coisa. A diferença é que, quando você divide a cidade com mais 10.999.999 pessoas, fora as que vêm do interior todo dia, a gama de histórias é maior e uma vez na vida, outra na morte, alguém se mete a contar o que viu.

Porque eis o ponto chave: ver, todo mundo vê. Se andamos em público, temos nossa platéia. A diferença é a necessidade que os espectadores têm em passar adiante o que viram.



Santo Antônio é meu amigo
Terça-feira, 3 Junho 2008, 2:38 pm
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É uma relação assim: eu não peço nada, e ele colabora.



Pequeno conto real sobre uma jovem que descobriu logo cedo: homem é tudo palhaço
Quinta-feira, 29 Maio 2008, 2:55 pm
Arquivado em: Por Mariana Albanese

Faz, talvez, dois dias. Fui ao supermercado, comprar coisa pouca, e voltava a pé para casa, quando choveu. Me escondi embaixo de uma árvore com as compras e chegou uma menina, bem novinha, um tanto encharcada e achando graça.
Imaginei que logo começaria a falar, porque no nordeste as pessoas ainda falam com desconhecidos, mesmo que não seja necessário. Só não esperava que ela me daria, na meia hora seguinte que passamos juntas, uma seqüência tão grande de informações interessantes para entender essa nova geração.

Começou com a seguinte frase: “eu vou arrebentar meu namorado se ele não aparecer”. Inocente, me surpreendi com o fato daquela menininha ter namorado, mas também com a explicação que veio a seguir: “eu marquei com ele aqui na pracinha. Vim na chuva, então ele também teria que vir”.
Primeira constatação: mulher é, geneticamente, besta. Porque sai na chuva achando que o homem vai fazer o mesmo.

A água caiu mais forte, e a árvore já não dava conta. Corremos para a igreja. Ali começava a missa, e ficamos na porta. “Me empresta seu celular?”, ela pediu, e ligou a cobrar para o namorado. “Ivan? Eu estou aqui, na igreja. Por que você não veio? São sete horas. Você tem até sete e dez para chegar”, e desligou. As ameaças de “dou um soco na cara dele se ele não vier” continuavam. Explica que leva ele na rédea curta, para onde o menino vai, tem que levar ela. O tal Ivan, me contou, queria namorar havia três anos, mas ela gostava de outro.

Pega meu telefone novamente: “Ronaldo? Você ta bravo comigo? Não, não estou querendo voltar. Só não quero que você fique intrigado de mim”. Desliga e, claro, me explica: “Ronaldo é meu ex-namorado. Ele está bravo comigo, não sabe ser amigo, acha que eu quero voltar com ele”. Diz que ainda gosta dele, mas o namoro de nove meses acabou por causa de uma amiga, que tinha mais poder sobre ele.
“Agora ele está bravo porque eu falo a verdade: essa menina tem a minha idade, está grávida e não quer que ninguém saiba. Eu disse que ela tem que contar”. Minha colega de porta de igreja, fiquei sabendo ali, tem treze anos e se chama Larissa.

A chuva não pára (quem chama isso aqui de sertão, mesmo?). Nada de Ivan, que tem uma moto. A menina espreita a rua, e levanta uma questão: “eu não consigo mais mandar nele. Quando a gente ficava, eu mandava. E agora que somos namorados, não mando mais!”.
Argumento que o ideal é ninguém mandar em ninguém. “Mas ele quer mandar em mim! Se coloco uma saia curta, ele pede para eu tirar. Mas não tiro, não!”. E justifica: “quando ele botar dinheiro em casa, aí sim tem o direito de decidir com que roupa eu vou sair”.

Já estou sem paciência de ficar em pé. O padre reza, a chuva cai. E Larissa continua: “meu namorado tem os dois dentes da frente quebrados por minha causa!”, e não foi mero acidente. A menina me conta que, um belo dia, ele disse que não poderia vê-la, porque ia estudar. Ela desconfiou, e quando ele passou na frente da sua casa, pegou uma moto e seguiu o rapaz, que entrou na casa de uma conhecida deles. Quando Larissa chegou no quarto, viu Ivan beijando a irmã de Claudiane, a dona da casa. Enraivecida, deu um soco na cara de Ivan, que ainda não era seu namorado. Com o evento, perdeu dois dentes e ganhou Larissa.

Meu telefone toca. É minha mãe pedindo meu MSN. A menina se anima: “você tem MSN? Me adiciona? Sabe mudar a senha? A minha é com o nome de um ex-namorado, Paulinho. Namorado retrasado”.
Eram sete e meia, continuava a chover, e Ivan não apareceu. Concordo em adicioná-la e despeço: “o final desta história, você me conta pela Internet”.

Ainda não fiquei sabendo se Ivan apareceu. Mas não é muito difícil de imaginar o desfecho.



De graça
Segunda-feira, 26 Maio 2008, 3:52 pm
Arquivado em: Por Mariana Albanese

Das primeiras vezes que vim ao nordeste, me encantei quando disseram: “fui com a sua cara de graça”. Simpático e prático: uma forma interessante de explicar aquelas afinidades inexplicáveis.
E assim, de graça, conheci muita gente bacana, dessas pra sempre: passa ano, passa vida, e quando nos falamos parece que foi ontem.

Mas algumas dessas pessoas são insuperáveis no quesito ir com a minha cara, e se tornaram verdadeiros anjos da guarda, fadas madrinhas. Cito duas, em especial: minha amiga Priu, de Recife, e a Côca, minha mãe adotiva aqui no Crato.

A primeira conheci em São Paulo, no auge da minha fase pernambucana. Ela tinha acabado de chegar à cidade para iniciar uma pós e nos esbarramos em um show do Eddie. Depois disso, foram meses intensos de muita Fun House e Pedaço da Pizza e noites dormidas no ponto de ônibus.  Quando minha amiga incansável deu sinais de fragilidade, saudade da terra, talvez, voltou para lá.  Caiu, levantou, e quando se reergueu, já com o bebê Lucca nos braços, me trouxe junto: sempre quando pode, alia minha profissão à nossa amizade, e me leva para fazer matérias na cidade onde esqueci de nascer. Só na casa dela que a gente acorda e vê dólares pendurados com pregador na rede da janela: porque só ela deixa dólares caírem na privada.

Minha outra anja se chama Maria do Socorro Silva Saldanha, a Côca. A importância dela na minha vida atual se divide entre eu ter sobrevivido nos últimos sete meses, ou desistido e voltado para casa.

Quando cheguei aqui, para passar uma semana durante a Mostra, não havia mais hotéis, e a saída adotada pela gerente do Sesc foi me hospedar na casa da tia dela.  Nos primeiros dias, com certa estranheza, dividi a cama box com aquela senhora, de cerca de 65 anos. Não via nela aquela imagem comum da mãezona nordestina, oferecendo quitutes e sorrindo. A Côca tem um jeito peculiar de ser. De te chamar de filha de uma égua da maneira mais amorosa que há.

Me colocou para dormir na sua cama, eu, uma estranha, e não achou ruim quando eu disse que não ia embora. Dividimos o leito por quatro meses. A vida ficou para sempre compartilhada. Almoço todos os dias lá, nem sempre posso ajudar na feira.  Ela entende, e não me cobra. Quando posso, deixo dinheiro, compro algo. Nas noites pacatas do Crato, deitadas para assistir a novela, reclamamos juntas das dificuldades.



Eu voltei?
Quarta-feira, 21 Maio 2008, 10:17 pm
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Ando tonta. Mais atrapalhada do que de costume, meio em dúvida sobre quem sou: a de lá, ou a de cá? As duas, por certo. Ou as três. Porque há o meio termo. Entre a grande metrópole do sudeste e o sertão há as capitais nordestinas e litorâneas. E não é que, pelo que me parece, é no meio termo que me entendo?

Nada a favor do mar ou contra o sertão. Inclusive prefiro, geograficamente falando, o segundo. Mas foi ali, no meio do caminho, que me curei da angústia de deixar a vida acontecendo em São Paulo e voltar para o meu cantinho.  Em Recife fiquei feliz de estar perto de casa. Em Fortaleza, já acumulava um certo cansaço - feliz, por certo.

Saí para passar quatro dias em Sampa. Passei seis. E mais dois em Recife, e outro um e meio em Fortaleza. Eu sempre faço isso, vou juntando idéias e amigos e saio desembestada por aí, como se o Brasil fosse um bairro. Contando trocados, andei 600 km de busão para Recife, outro 3 mil para São Paulo. Passada uma semana, refiz o trajeto dos 3 mil, e acrescentei 850 para Fortaleza. No ônibus mais barato que tinha. Na volta para o Crato, 550 km. Dessa vez, de leito. Eu merecia um gran-finale por 65 reais.

 



São Paulo!!!!!!!!!!
Quarta-feira, 7 Maio 2008, 9:41 am
Arquivado em: Por Mariana Albanese

Pode ir armando o coreto e preparando aquele feijão preto… Eu to voltando!!!

Mas não se acostume, cidade querida, que é só por uma semana, hein!

 



Livre
Sexta-Feira, 25 Abril 2008, 11:26 pm
Arquivado em: Por Mariana Albanese

Eu pergunto a você, meu caro leitor: você já se sentiu livre? Tipo um padre com mil balões voando pro lado certo? Bicho, eu tô feliz.
Não importa que estou sem dinheiro, gripada, com tersol, minha cabeça dói que só, ou que me estressei o dia inteiro com a lentidão alheia. Nada se compara à visão que tive a pouco, em que desfiz o último pontinho de laço afetivo que pudesse restar de uma história com um quê de “quê??”. 

Por mais que não seja agradável ver certas coisas, elas nos fazem cair na real: por que levamos a sério pessoas que não são sérias? E novamente (de novo!): diga-me com quem andas (e com quantas), que eu te direi quem és! 

Eu já vi esse filme antes, e uma reprise ao estilo “Vale a Pena Ver de Novo” baixou por aqui semana passada. Não vi de novo, porque nessas o anel que era de vidro se quebrou há tempos.

 



Por fora
Sexta-Feira, 25 Abril 2008, 10:29 pm
Arquivado em: Por Mariana Albanese

O Cariri inteiro pegou conjutivite. Eu estou com tersol. Amo ser do contra. Eles conçando por dentro, e eu por fora.



A declarante se declara arrasada
Quinta-feira, 24 Abril 2008, 4:29 pm
Arquivado em: Por Mariana Albanese

Porque o show de Jessier Quirino no Crato vai acontecer quando eu estiver em São Paulo. Aguardo há um ano por ele!



Deus te livre, leitor, de uma idéia fixa
Quarta-feira, 23 Abril 2008, 2:55 pm
Arquivado em: Por Mariana Albanese

Recentemente me perguntaram quem eu sou.  Na hora não me ocorreu que a melhor resposta seria essa: sou a soma de minhas idéias fixas. Quem disse isso a primeira vez foi Nelson Rodrigues, quando se referia ao “grande homem”. Não sei se sou uma grande mulher, mas não vejo uma explicação melhor para mim.

Acabo de deixar para trás um projeto em que comecei a me engajar aqui, que foi o Coletivo Malungo. Nada contra meus amigos-malugos, que continuam na batalha. Eu saí de lá por não conseguir dividir minha atenção de forma justa entre os projetos que trabalho.  E na hora de entender o que seria prioridade, a idéia fixa bateu de novo. Ela se chama Casa Grande, e tem razão de ser: a idéia de educação não-formal sempre me atraiu, porque eu sempre achei que é a única saída para o maior problema do país, que no meu ver são as escolas.

O Ceará possui um dos piores níveis de aprendizado do Brasil. Mas pra mim, a questão é mais profunda: as escolas são ruins mesmo quando são boas. Uma escola funcionando “corretamente” faz um dano tão sério a nossa inteligênciam que passamos os anos seguintes num esforço inconsciente para limpar toda a inutilidade engolida.

Pensando desta forma, não há muita surpresa em saber porque dei uma de ideafix e saí correndo atrás deste projeto. Olhando por esse ângulo, sou a pessoa mais fácil de entender: sou previsível dentro das minhas fixações imprevisíveis.



Personal psicóloga
Quarta-feira, 23 Abril 2008, 12:39 pm
Arquivado em: Por Mariana Albanese

Todo mundo aqui se magoa. Com tudo. Não importa se você não fez por mal, não importa sequer se pra você aquilo não é uma ofensa. A prática é tão comum, que inventaram até a expressão “caminhão dos magoados”. “Cuidado para não subir”, avisam.

Tudo bem, vim de fora. De outro país, como alguns dizem. Amigos se magoam às vezes, mas não na proporção encontrada aqui. Agora, profissional magoado, me poupe.
Pois foi quando chegou nesse nível que eu perdi a paciência. De verdade. Cogitei a hipótese de me isolar numa bolha. Você pedir um show e o gerente se dizer “ofendido”, ou pedir um equipamento para quem pode fornecer, e o que não pôde se sentir “denunciado” me causam um desânimo sem tamanho. Informar às partes interessadas como anda uma parceria e ser acusada de revelar segredos, também não rola.

Já batendo a marca dos seis meses, vejo as diferenças culturais de uma forma mais clara. Não se trata, de forma alguma, de achar que tenho superioridade, que sou do sudeste e patatá. De certa forma, as relações sociais aqui são mais evoluídas - ou talvez não tenham evoluído para o mal -, mas ainda falta maturidade para separar as coisas. Não é vestir a máscara do profissional (coisa que desaprovo, porque trabalho e vida, pra mim, são indissociáveis), mas agir profissionalmente, inclusive na vida.

Enquanto isso, estava pensando em carregar uma psicóloga para as minhas reuniões de trabalho. Se eu magoar alguém, ela explica que isso tem um fundo afetivo mal resolvido.